A Última Ceia
Gabriel estava bêbado. Jantara com alguns amigos e depois foram para uma festa. Agora, no silêncio de sua sala de estar, estava pensativo. Uma taça de um bom Cabernet Sauvignon argentino na mão; sentou-se no velho sofá e deixava sua mente viajar. À sua frente, apenas uma parede branca com um quadro… Jesus e seus doze apóstolos estavam à mesa no que seria a última ceia deles juntos. Naquela réplica da famosa pintura de Da Vinci, uma dúzia de homens estavam consternados, enquanto o personagem principal estava sereno, já sabedor e conformado com seu próprio destino. Gabriel ouvia algumas vozes que pareciam vir da rua… palavras que não distinguia, mas parecia entender bem o que queriam dizer… tinham tom de acusação, denúncia, defesa e negação… “mais uma discussão no edifício ao lado” – pensou, enquanto enchia novamente o cálice e deixava a garrafa ao lado do sofá, como fizera milhares de vezes antes daquele dia. Olhou novamente para o quadro… tudo lhe pareceu normal quando André postou as mãos na mesa para levantar-se; Pedro disse a João “Pergunte-lhe quem de nós será o traidor” e voltou ao seu assento; Tiago levantou-se, indignado da mesa; João curvou-se para o mestre e perguntou-lhe aos sussurros “Quem de nós o será, Senhor?”; Filipe pôs-se a chorar por pensar que seria ele o traidor; Natanael e Tiago conversavam tentando buscar sinais de quem o seria; Mateus, Tadeu e Simão não ouviram o q ele dissera, por estarem longe na mesa; Tomé assim disse ao Mestre “Um traidor? Não posso acreditar!”; e Judas apenas buscou o pão à mesa, encontrou a mão do seu Mestre, que lhe falou “O que tens a fazer, fazei-o agora”… ele levantou e afobou-se para fora da mesa.
Gabriel também não estranhou quando Judas precipitou-se para fora do quadro, passou pela sala e, desbotado, correu porta à fora, deixando-a entreaberta. Os outros onze apóstolos pensaram que ele iria providenciar algo que estava escasso para a ceia, pois ele saíra com a bolsa. Aos poucos, Simão, que cuidava do descanso e diversão do grupo, juntamente com André e Tomé, líderes dos doze, convocou os outros oito para a ceia de Gabriel. Apenas Jesus ficou no quadro… imobilizado, com o mesmo semblante sereno… nada poderia fazer para evitar a ceia de Gabriel, seus seguidores estavam decididos à realizá-la.
Enquanto esperavam Judas voltar com o quer que fora buscar, João e Pedro ficaram ao lado de Gabriel, ouvindo-o e aconselhando-o sobre o que encontraria pela frente; ele, porém, não compreendeu muita coisa, por conta dos versos e anedotas singelas que os dois usavam para se comunicar. Filipe, o mais curioso, já abria as portas do armário da cozinha, para saber o que teriam para o jantar; ao seu lado, Mateus rabiscava num papel uma lista e pediu para Tiago e Tadeu irem às compras, sem esperar que Judas fizesse aquilo direito. Tiago, o maior, ajeitava a pequena mesa onde os treze comeriam e conversariam por horas.
Gabriel continuava sentado, taça de vinho tinto na mão, pés descalços… sabia o que tinha a fazer na condição de anfitrião: praticamente nada, pois estavam todos tomando conta dos afazeres para que tudo saísse dentro nos conformes.
Assim que Tiago e Tadeu chegaram com as compras, um milagre aconteceu: multiplicaram-se as cadeiras e o espaço à mesa; agora contavam-se treze assentos confortavelmente espalhados em volta da mesa de madeira rústica, recoberta com uma fina manta de algodão branca. Ali, então, espalharam a comida e a bebida: pães, vinhos e, a despeito do que figurava no quadro atrás da mesa, alguns peixes, já que mais da metade dos apóstolos foram pescadores em tempos idos. Ainda sentiam a falta de Judas… passara-se muito tempo que ele saíra, mas não se preocupariam em esperá-lo para cear, já que estava ficando comum a ele sumir sem avisar e retornar horas depois.
Sentaram-se à mesa, seguindo a ordem que estava no quadro atrás deles; Gabriel estava no centro, à sua esquerda estavam Tiago, Tomé, Filipe, Mateus, Tadeu e Simão; na direita, havia João, a cadeira vazia de Judas, Pedro, André, Tiago e Natanael. Cearam… ouvindo histórias de vida que Gabriel não contava: suas passagens terrenas não eram muito dignas de serem divididas como aprendizado ao grupo. Filipe apenas ficava quieto, observando a todos com grande curiosidade, enquanto Simão e Mateus eram os que mais falavam. Tomé apenas indagava às afirmações dos amigos: ”Não creio!”… Pedro continuava contando passagens a João, o mais novo, para que ele não repetisse os erros dos mais velhos… e assim seguiu-se por algumas horas…
Judas surgiu, finalmente, quando todos estavam satisfeitos e conversavam sem preocupações. Parecia estar preocupado, um pouco carrancudo até; André indagou: “Aí o está… Judas, perdeste a ceia, amigo!”. Natanael levantou-se da mesa para recebê-lo e, ao ver que o amigo não desfez a expressão obscura, perguntou: ”Por que esta cara, Judas?”. Ele olhou nos olhos de Gabriel e respondeu: “Vocês bem sabem o que fiz há cerca de dois mil anos… não é à toa que viemos aqui e preparamos uma ceia similar à nossa última ceia com o Mestre; posso, por mais milhares de anos, ser visto como traidor, mas completei minha tarefa entre os doze e eis que chegou a hora deste nosso anfitrião, a quem chamamos Mestre esta noite, aceitar seu destino”. Natanael, seguido dos outros onze à mesa, sentiu calafrios ao ouvir essas palavras e, principalmente, ao ver um cavalo negro, com um montador vestido com uma túnica escura como a noite em eclipse e uma grande foice à mão entrar pela porta atrás de Judas; os olhos, por baixo do capuz do montador, eram as únicas partes não negras ali: eram vermelhos, brilhavam de modo assustador; um vapor escuro, fétido como enxofre, era expelido pelo cavalo. Gabriel pulou sobressaltado do sofá… respirou fundo até entender que aquilo não passara de um sonho. Nos pés, sentiu o molhado do vinho que derrubou enquanto dormia; o tapete estampava uma grande mancha avermelhada. Levantou-se dali para pegar um pano e diminuir e estrago do borrão que ficaria. Olhou para a figura, na grande parede branca… estavam todos de volta aos seus lugares. Correu até o tanque e pegou um velho pano de limpeza; virou-se e viu, no chão, um rastro de um líquido viscoso, vermelho vivo. Ali, ao lado de André, Judas não mais olhava para João e Pedro… encarava-o de frente, com olhos vibrantes vermelhos, seu rosto parecia entristecido, como se fora forçado a algo por contragosto… as mãos de Gabriel estavam sangrando, assim como os pés e sua testa… os rastros que se estendiam até ele não eram do vinho, mas de seu próprio líquido venal… arrastou-se até o sofá novamente; percebera que não tinha o que fazer senão aceitar sua sina, como Judas lhe dissera em seu sonho… olhou para o quadro; ao lado direito de Jesus de Nazaré, sua própria imagem aparecia desbotada, com uma veste azul e uma manta verde. Judas pegou o pão que Gabriel lhe oferecera e beijou-lhe o rosto… chamava-o para seu destino.
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