Sobre o Concurso

Quando tudo voltar ao normal, provavelmente vou escrever sobre tudo o que ta dando errado esse mês. Seguinte pessoas:

A partir de amanhã, estou na exclusão digital. E esse é um assunto do post, a razão de ficar sem internet. De qualquer modo, posto agora os textos da quarta rodada pra tentar não ter tanto prejuízo assim em termos de concurso.

Boa Sorte!





ps. lembrando que a votação do terceiro round estará aberta normalmente até amanhã - 25/01- e estejam de parabéns todo mundo que faz aniversário durante a minha exclusão digital.


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TEXTO 7

A carteira


- Senhor, a carteira!

Essas coisas só acontecem comigo quando estou atrasado para o serviço. Pior é que eu já cheguei fora do horário ontem. O supervisor vai querer comer meu fígado hoje. Já posso ir me preparando pro esporro. Mas eu tenho que fazer isso. Eu podia apenas ficar com o dinheiro do cara e dane-se a carteira com os documentos dele, mas eu não sou assim.

- Senhor, a carteira!

Ta certo que ele está um pouco distante, mas não é possível que ele não esteja me ouvindo. Será que ele é surdo? Só me faltava essa.

- Senhor, a carteira!

A partir de amanhã vou começar a fazer uma dieta, caminhar todo dia, o que for. Só não da pra ficar assim. O senhor deve ter uns 20 anos a mais que eu. Não está correndo e mesmo eu andando num passo acelerado não estou conseguindo alcançá-lo. E nem pensar em correr no meio da rua até ele. Eu prefiro morrer a fazer esse papel de ridículo.

- Senhor, a carteira!

Maldita carteira. Devia ter deixado ela lá. Espero que ao menos ele me dê uns trocados como recompensa. Pelo menos assim posso comprar um refrigerante e matar a sede que essa perseguição ta me causando.

- Senhor, a carteira!

Será que ele não percebeu ainda que derrubou a carteira na hora que pagou o restaurante? Que droga. Estou atrasado.

- Senhor, a carteira!

O semáforo! É agora. Ele parou. Vou conseguir alcançá-lo!

- Senhor, a carteira!

Ainda um pouco distante. Mas vai dar tempo. Vou alcançá-lo, entregar a carteira e dar no pé para tentar chegar no horário no serviço.

- Senhor, a carteira!

Droga, ele resolveu atravessar a rua mesmo com o semáforo fechado. Já está no meio da rua. Que droga. Mas já estou perto o suficiente. Agora ele já consegue me ouvir, não é possível.

- Senhor, a carteira!

Ele me ouviu. Percebeu que não está com a carteira. Parece feliz com a minha boa ação. Talvez até me dê uma recompensa.

- Senhor, a carteira.

Quase lá. Cinco, seis passos, talvez.

Mas peraí. Não!

- Senhor, o ônibus!

Droga! Vou chegar atrasado a toa...

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TEXTO 8

A História de Nadamundo


Até hoje não se sabe ao certo como foi que ninguém, absolutamente ninguém na cidade desconfiou que aquele homem, ou antes aquele rapaz, ou antes ainda, aquele menino não possuía as faculdades mentais "normais". Justo ele, que sempre fora absurdamente saudável - na ficha hospitalar de nº 1.378 sequer constavam carimbos comprovando as vacinações obrigatórias - pois, mesmo tendo sido abandonado pelo pai antes de nascer, não se ouvira queixa alguma de sua pobre e infeliz mãe; ao contrário, sempre que possível, ouvia-se as pragas das vizinhas, com seus filhos com caxumba, catapora e todo esse dicionário de moléstias infantis de quase sempre começam com "c" ou "s" e quando os médicos não têm o que dizer, sempre se saem com uma palavra geralmente longa e terminada por "ite", pra não repetirem o já enfadonho "-Não se preocupe, senhora, é apenas uma virose; em uma semana ele já estará recuperado!".

Mas eis que agora, em seu velório, as pessoas se desnudaram de seus maus-caráteres e desandaram a torcer narizes e olharem de lado ou mesmo balbuciarem palavras ofensivas diante do fato estarrecedor da viúva estar sendo consolada justamente pelo amante, sabido e ressabido nos quatro cantos, menos pelo morto, corno, chifrudo, indiferente a tudo e a todos, absorto como se requentado pelas velas derretentes próximas aos seus ouvidos. Era um tal de pobre homem daqui, um coitadinho dali e um só ele é que era feliz dacolá; Os evangélicos reclamavam o direito dele ser um "irmão", enquanto católicos lembravam que ele fizera a 1ª eucaristia, mesmo sem nunca haver decorado os 10 mandamentos. Houve quem dissesse que já o vira, por diversas vezes, madrugada adentro, perambulando pelo bairro das casas de "caridade"; outros exaltavam sua ilibada reputação, como digna de nome de praça ou, pelo menos, um canteiro bem ajardinado.

Na hora em que o féretro entrou pelo portão principal e único do cemitério, a multidão esparramada, que encarava todo enterro como evento social da mais alta importância, para poderem assim apresentar seus óculos escuros que cobriam quase todo rosto sem uma lágrima sequer, ou a humildade de caminharem dois ou três membros da família, enquanto outros dois vinham atrás, num carro no final do cortejo, ficou quase absorta, entre o nada e o coisa alguma a dizer; houve quem perguntasse: "-Morreu de quê?"; e quem respondesse: "-Parece que foi de repente!", ambos se dando por satisfeitos.

Sabe-se, com certeza, que tinha dois ou três amigos, dos quais pelo menos nunca chegou a esquecer os nomes; o resto das pessoas eram para ele como pedaços de pau, pedras, ou mesmo nada; estranho portanto, que tanta gente fosse à sua despedida final. Os amigos estavam lá, cansados de responder, minuto a minuto, qual era o seu nome,em que trabalhava, se não tinha mais ninguém da família, se a viúva não tinha vergonha, ao que concordavam balançando afirmativamente a cabeça pra cima e pra baixo ou dando de ombros e franzindo a boca e mexendo sobrancelhas.

Por volta das cinco da tarde, a mãe, constrangida por todo o alvoroço que foram as últimas horas, vira-se para um dos amigos do filho falecido e indaga-lhe: "-Por que razão ele sempre aceitou tudo, nunca brigou com a mulher, com os colegas, com professores, comigo, porquê jamais se revoltou contra todo tipo de humilhação e indignidades que sofreu durante sua breve existência?". O Amigo tornou-se para ela e suavemente, reposicionando os óculos um pouco mais acima, no nariz (como quase todos os médicos costumam fazer quando vão descer do alto de sua condição de semi-deuses), respondeu-lhe: "-Só agora a senhora e alguns mais vêm perceber, seu filho era autista."

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12x8

Essa semana foi interessante. Deu tempo de reler os textos do concurso. E deu pra meio que mudar de idéia quanto ao próprio concurso. Quando eu me propus a tocar pra frente a idéia do concurso eu pensei em 12 textos selecionados, sendo um pra cada mês do ano de vida do blog.

Quando eu comecei a ver uns textos, querendo acirrar a competição na fase em que só eu me divertia, reduzi os selecionados pra um número menor, de modo a implementar a criatividade dos possíveis participantes.

Acontece que oito não é um número com uma simbologia legal pra mim. E nem diz nada quanto ao blog. E tem muito estilo legal que não aparece ainda.

Daí: volta o número 12.

E tenho dito

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Texto 5

Um homem atormentado

Sentado na cadeira, suando frio, coçava as mãos e olhava o relógio a toda hora.

Estava atrasado, mas o medo era mais alto. As mãos suavam e a aflição tomava conta de seu corpo. A palpitação do coração podia ser ouvida do outro lado da rua.

Pensou em ligar para algum amigo para pedir conselho, mas sabia que não havia ninguém para ouvi-lo.

Algum parente? Sempre ouvira que a família é importante nesses momentos, mas naquela hora ninguém iria ajudá-lo.

Olhou o relógio novamente, sentiu que um século havia passado em um minuto.

Decidiu se levantar. Andou para um lado. Voltou para onde estava.

Resolveu sair.

As dúvidas o atormentavam. As pessoas na rua andavam alheias aos seus supostos problemas. Como podiam andar tranqüilas assim?

Olhou mais uma vez o relógio e viu um milênio em 10 minutos.

Passou por um bar e viu todos rindo. Passou por um salão de beleza e viu todas conversando alegremente. As pessoas agiam com hábitos normais, ignorando totalmente o que se passava com aquele homem.

Chegou até uma igreja.

Olhou e resolveu entrar para ver se achava as respostas para sua angústia.

Chegou perto do altar e encontrou uma mulher, de branco.

- Sabia que não me desapontaria.

Com lágrimas nos olhos, viu em volta todos os amigos e familiares que foram convidados para o seu casamento.

Com apenas uma palavra de três letras todas as suas dúvidas, aflições e questionamentos se dissiparam:

- Sim!

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Texto 6

O bêbado e o mendigo

Lá estava o jovem rapaz, sentado na mesa de um bar fétido, de odores indigestos. Tinha apenas vinte e cinco anos, mas aparentava naquela ocasião muito mais. Barba mal feita, cabelos despenteados, com o olhar melancólico em direção ao seu copo vazio, onde bebera suas últimas economias.

Havia perdido o emprego, a esposa saíra de casa e levara consigo o cachorro. Estava só, sem dinheiro, e principalmente, sem esperança.

Já era meia noite, e o bar havia fechado. Embriagado e sem rumo, ele saíra pela rua vagando no vazio, na solidão. Por fim, acomodou-se em uma calçada e ficou lá sentado. Olhando aquele imenso vazio, pôs-se a chorar. Chorou, como se nada mais importasse, como se tudo estivesse para sempre perdido. Não se sabe por quanto tempo ficou lá, derramando rios de lágrimas, porém em um certo momento um velho, de aparência horrível e trajando trapos de tecidos, sentou-se ao seu lado.

- Não chore amigo, tenha ânimo – dissera o homem calmamente colocando as mãos nos ombros do rapaz.

- Quem é você? – disse o pobre rapaz, tirando as mãos do estranho de seus ombros.

- Sou o seu destino – falou, abrindo um largo sorriso, deixando à mostra seus dentes podres.

- Você é um louco, vá embora.

- Você não pode virar as costas para o seu destino meu caro! – agora a expressão do mendigo tomara um ar mais sério, assustando o rapaz.

- Está bem, então por que o meu destino é tão feio assim? – falou em um tom de deboche.

-Eu não sou feio, eu estou feio. São duas coisas completamente diferentes. Estou feio agora porque é assim que você me enxerga neste momento.

- Faz sentido, afinal, se eu perdi tudo, meu destino deve ser horrível como você mesmo.

- Não é bem assim – falou em um tom ameno – Você é jovem, conseguirá se recuperar.

- Duvido muito, tudo parece sem sentido, sem cor, alegria. Eu era tão feliz e agora nada tenho.

- Você irá superar, o melhor remédio nessas horas é o tempo. Você ainda tem sua família, seus pais. Não se preocupe com o fim de seu casamento ou com o desemprego.

- Como você sabe que me divorciei? Ah, entendi... – disse olhando para sua mão – A marca da aliança ainda está no meu dedo, boa dedução, eu quase caí.

- Me escute filho, vá para a sua casa, tome um banho. Tudo passa, logo você não terá mais essas preocupações.

- Tem razão, essa conversa me deu um pouco mais de ânimo. Olhando direito agora, você nem parece tão feio! Está mais simpático eu acho... Mas está bem, vou para casa.

- Adeus rapaz.

Agora, mais confiante e radiante de alegria, o rapaz se levantara da calçada e seguiu para a parada de ônibus. Estava bem mais animado quando fez sinal para o veículo parar.

No outro dia era a manchete nos jornais. Um bêbado havia sido atropelado por um ônibus e foi considerado morto ainda no local. O motorista afirmava que não havia visto o bêbado por ainda estar muito escuro, bêbado este que se encontrava sem documentos e por isso seria enterrado como indigente. O quê? Esperava um final feliz? Brasileiro é muito mal acostumado mesmo...

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Segunda Semana de Votação

É, depois da primeira semana de votação, os novos textos.
Boa sorte aos concorrentes!

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Texto 3

De como sentir é difícil ou de como o essencial é invisível aos olhos


Tinha sido um dia muito longo e era só agora que tinha a oportunidade de refletir bem sobre todas as sensações que tinha experimentado nas últimas 24 horas. Ser uma pessoa bem-quista e ter muitos amigos garimpados durante toda a vida não lhe adiantaria tanto, já que estar só ou acompanhada naquela hora não fazia qualquer diferença. Ali, naquela hora, nada mais lhe importava. Sentava-se com seu vestido preto, aquele que só havia usado no velório da tia Ema, aos 25 anos, e, por uma década nunca cogitou ter que usa-lo novamente, mas às 9 da manhã do dia de hoje não havia outra alternativa.
Desde o dia anterior a notícia do AVC de seu pai lhe embaralhava os pensamentos e não pensava em nada além de tudo o que tinham vivido juntos e tudo o que tinha ficado por dizer (ou o que NÃO tinham vivido juntos, já que dos assuntos de mulher ele sempre se esquivava, era aquele jeitão caladão, mas cujo silêncio sempre disse tudo significativo). De manhã ligaram do hospital informando que, apesar de todos os esforços da equipe da UTI, ele não conseguira resistir; mesmo com todas as medidas terapêuticas adotadas, incluindo aquela longa e complexa cirurgia com o melhor prognóstico possível, ele evoluíra a óbito. O difícil estava sendo aceitar o ocorrido, engolir a fraqueza do pai – não era possível.
Há algum tempo ele não precisava mais se preocupar com o sustento dos filhos; os 3 haviam escolhido carreiras diferentes uns dos outros, mas tudo tinha dado certo, tinham certa estabilidade financeira e começavam a formar famílias, lógico, e o que é a vida senão a relação investimento-retorno de pais para filhos? Só tinha de se preocupar com a saúde – sua e de sua velha. Mesmo com um bom padrão de vida e presença sólida na igreja, José Maria se aborrecia com seu fim e as inquietações que a velhice traria.
Mas Maria Ângela não conseguia parar de pensar naquela relação investimento-retorno. De início os pais investem na educação dos filhos da melhor forma que julgam; porque, ao constituir família o que mais se pensa é no futuro, e quando os filhos nascem é na adultez deles que se pensa, no seu caráter e sua posição enquanto cidadãos nos grupos sociais em que se inserem. Depois eles crescem, estabelecem metas, e começam também a constituir suas próprias famílias – e assim deve ser, ao saírem de casa, assumirem a necessidade de retribuir aos pais o investimento, a criação, a dádiva da vida: os filhos devem aos pais. É aquela coisa de dever não obrigatoriamente, é o retorno natural... primeiro os pais cuidam dos filhos, e depois os filhos cuidam dos pais. Coisas que a vida traz. Isso ela tinha fixado na terapia quando ainda fazia faculdade – a psicóloga talvez nunca tenha entendido esse raciocínio, talvez nem fosse sua intenção que ela chegasse a tal conclusão, mas isso ela carrega desde então.
Não sabia o que havia no ar nesse momento, desde que achava esquisito estar só na sala de velório com o pai, sendo ele o corpo inerte no meio do ambiente; mas o dia tinha sido cheio – muitos amigos, familiares, conhecidos... muitas visitas, chorando juntos e lembrando juntos histórias passadas. Sua mãe, a viúva, havia sido levada embora por João Carlos e José Pedro, seus irmãos, para descansar. O resto da vida sem o companheiro seria muito mais difícil, e os filhos resolveram por tornar esse momento menos sofrível – Ângela ficaria com o pai e eventuais visitantes no período da noite:
- Meu Pai, tem um monte de coisas que eu tinha aqui dentro para dizer...
Nem se atrevia a fazer as contas de quanto tempo fazia que estava naquela meditação maluca, sem comer, sem dormir, sem tomar banho ou sequer água. O ar que já parecia estar enevoado agora tinha o cheiro dele e ela podia até sentir sua presença na cadeira ao lado e quando se deu conta, podia ouvir a voz:
- Ângela, querida, até que imaginei que fosse passar a noite só, mas confesso ter ficado feliz por sua presença. Tem sempre coisas que ficam pendentes; não que nos prendam aqui, mas que a gente julga que teria sido bom se fossem ditas.
- O senhor sempre nas horas certas (sorrindo sem vontade e pondo as mãos no rosto para tentar conter o choro). Eu deveria ter algum preparo para as perdas, já que tantas pessoas já nasceram por minhas mãos...
- Eu sei que nunca fui o pai amoroso, aquele que dialogava tanto, que escutava e considerava a opinião de vocês. Fui criado do jeito que o pai era o chefe da casa, e de quem partia a responsabilidade de decidir e fazer valer o sustento da família. Começamos bem debaixo, sua mãe e eu, e nunca tivemos tanto tempo de fazer boas estantes de livros em casa, não beijávamos toda hora, por considerarmos tão mais importante transmitir valores, como honestidade, disciplina e perseverança e, nesse meio tempo, a gente se perdeu das conversas melosas com vocês... e se eu pedisse desculpa por não ter dito que tenho tanto orgulho de vocês? Perder alguém não é tão difícil quando sabemos nosso valor para aquela pessoa e do que é suficiente para ficar conosco e que podemos transmitir aos nossos filhos. Você sempre aprendeu bem e rápido as coisas importantes.
- Eu sei! Temos muito de valor para carregar. O que digo da perda é de como é difícil não ter mais a pessoa ao nosso alcance. O senhor estava ao meu alcance, mesmo que tenhamos tido pouquíssimos momentos de conversas francas e abertas depois da minha adolescência. E talvez seja por isso que lembro tanto de, ainda pequena, deitar com o senhor na sua rede e lhe ouvir me chamar de “minha princesinha”. Depois que cresci era Maria Ângela, mesmo: “você é de maior, já sabe o que faz”. Às vezes se sentir protegido é o que mais se quer quando se é adulto. A sua presença me protegia.
- E a de vocês me protegia também! Ser pai de família permite que você estabeleça sua força naqueles que dependem de você. Você acabou de casar, e vai aprendendo com o tempo.
- Sempre aprendi nos livros que devemos seguir o pensamento de alguém, ou alguma corrente filosófica ou psicológica. Tentei fazer esse exercício de estabelecer as “correntes” das pessoas, mas a sua eu nunca soube qual era. Como posso colocar o senhor em uma moldura, pai? Como posso transformá-lo em uma pessoa como as outras, aquelas que eu vejo todos os dias, as que eu ajudo a nascer e as que ajudo a suportar a dor? Todos os retratos da nossa família parecem tão diferentes, o senhor sempre foi tão diferente – diferentemente o mesmo...
- E viver não basta? Não é o bastante que meus problemas, minhas glórias e meus filhos tenham me mudado e me feito assim? Por que alguém haveria de determinar como eu sou, devo ou não ser? Esse foi sempre o seu medo, Maria Ângela; sempre foi a criança, a moça mais livre que eu já vi, mas ao mesmo tempo a mais presa às regras, ao certo e ao errado.
- O senhor era o meu certo e o meu errado, papai – quase gritando sem controlar a emoção fundida ao desespero da partida sentindo o cheiro esmaecer! Não consigo aceitar!
- Tudo passa, Maria Ângela, minha princesinha! Do jeito como passou o tempo dessa sala cheia hoje... viu? Agora só somos nós dois e, daqui a pouco, só você aqui e eu lá, embora nunca vá me perder realmente. A faculdade não lhe ensinou que eu e sua mãe estamos no seu sangue, não? Naqueles tais de genes... e eu ainda acho que existe o gênio, que já vem de nascença, igual como a cor dos olhos, dos cabelos e a cor da pele. Graças a Deus vocês três têm o gênio bom; eu e Aurora fizemos um bom trabalho. Só quero pedir desculpas por ter frustrado vocês tanto na juventude, ou nem pedir, já que são adultos formados, com a vida encaminhada, tudo endireitado. Então continuem assim e cuidem da sua mãe; ela anda trocando o açúcar por sal. É verdade o que dizem – a gente vem ao mundo pra fazer algo importante.
Não sentindo mais qualquer sensação olfativa a não ser a quase falta de ar, ela se levanta e vai ao banheiro lavar o rosto. Com as mãos sustentando fracamente o corpo na pia, olha-se no espelho, e procura no rosto as semelhanças com aquele homem com quem acabou de ter a mais rica conversa de sua vida; as semelhanças fisionômicas são melhor vistas por outras pessoas, mas ali, correndo os dedos nas veias salientes de seu antebraço, ela podia ver cada pedacinho dele.

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Texto 4

Os Gatos de Madame M.






Levantei-me pela manhã com a mesma impressão do dia anterior sobre o corpo de Madame M. O que teria acontecido à pobre senhora que morava ao lado do hospital, sem que ninguém ouvisse nada no dia em que Madame morrera?
Nem eu, nem ninguém. Todos, impassíveis, não escutaram nada e Madame passou do mesmo jeito de sempre, puxando dois gatinhos vadios e com um casaco furado, como era de seu costume. Ninguém mesmo perguntou, ou ousou perguntar à Madame, as horas. Nem mesmo ousamos dar boa noite, ao que ela entrou faceira, mais uma vez, e fechou a porta da pequena mansão, onde mantinha, à custa de muitas rações, gatos e gatos e gatos. Felinos variados e de todas as espécies havia na casa de Madame M.
Eles sempre estariam ali, eu sabia, e pela noite, quando batesse às três horas – sim, as três horas – Madame mandaria os gatos se aquietarem e apagaria as luzes de dois abajures que mantinha na sala da casa, depois se levantaria.
Eu via o corpo branco de Madame M. percorrendo os corredores, porque duas outras luzes estavam acessas ali – e também via quando Madame se apegava à beirada da porta manchada, pela repetição do gesto – em resumo, pelo hábito – e depois ouvia mesmo a descarga do banheiro explodir turbilhões de gosta d’água ao mesmo tempo, fazendo um barulho indecifrável. Que notas seriam? Eu não fazia, afinal, a minúscula idéia de quantas notas poderiam sair – em revoada – do sanitário de Madame M.
Ela também tinha hábitos noturnos e raramente – com a ajuda de um binóculo – eu enxergava o corpo de Madame sobre a cama. Ela estava ali, pastorando, com os gatos que criava, a casa e as paredes manchadas e com vazamentos, os abajures que há séculos não eram limpos, os quadros dependurados nas paredes, as lembranças do marido e da família, os sonhos sonhados e os sonhos perdidos, a vida e a morte próxima.
Madame nunca ligara mesmo para ninguém. Sozinha e viúva – o marido morrera durante a Segunda Guerra Mundial – se deixava levar, todo o dia, olhando os gatos que enchiam a casa e se espalhavam pela vizinhança. À tarde, assim, perto das 18hs, os gatos vinham, um a um, para a casa da mãe. Aglomeravam-se primeiro no portão, aos miados, e depois que pulavam o portão – sempre em bandos de cinco ou seis, se juntavam na porta da casa, com persianas da França e uma decadência bem brasileira. A velha saía, impreterivelmente, às 18h15 e abria a porta para os bichanos. Enquanto eles corriam entre as suas pernas e depois iam para a cozinha, onde ela – sempre atenta e caridosa – lhes preparava a comida, ou melhor, a ração, ficava observando os gestos de Madame.
Contavam-se, nos últimos dias de vida de Madame, cerca de 100 gatos. O número podia variar, já que Nelito nunca soubera, ao certo, o numero exato de gatos na casa de Madame. Nem eu mesmo, que cheguei, muitas vezes, quando criança, a pular o muro da casa que julgávamos mal assombrada, não saberia contar, agora, o número deles. Apenas deduzíamos e esse número – escalado numa dedução – podia ser maior. Madame, também, jamais comentara conosco sobre os gatos, preferia, quando falava – era rara a prosa com a velha do casaco furado – preferia falar da guerra e lembrar da pistola do marido, que deixara sobre a mesa e que, um dia pela manhã, depois de despertar, não a encontrou mais. E, sempre que escutávamos a história da pistola do marido de Madame, os olhos dela enchiam-se de lágrimas e uma nuvem de tristeza pairava sobre nós. Conduzíamos, depois, Madame para casa, sempre com cuidado para não batermos em nada. “Meus meninos, eu estou bem. Podem deixar, que daqui a pouco eles chegarão”, a velha dizia e se recolhia na cadeira, fechando os olhos opacos e cerrando as pálpebras quase sem vida, cobrindo-se com uma manta cinzenta e olhando – as pupilas recheadas de saudade – pela janela afora. “Daqui a pouco, meus meninos, daqui a pouco”, e suspirava, afundando-se na cadeira e sumindo entre as tiras e a manta cinzenta.
Saíamos da casa de Madame sempre esperando o trágico. E nunca o trágico chegara. Somente os gatos chegavam, aos montes, à casa. Como se fossem informados que ali haveria comida e água e moradia, eles se acumulavam pelos corredores e dormiam sobre as colchas de veludo de Madame, amarrotavam seu casaco com furos e arranhavam – sempre aquelas unhas rangentes – o sofá de Madame M. Também defecavam na porta da cozinha e espatifavam, pela casa, panos e tiras, bolas e rolos de linhas, papéis e objetos redondos. Madame, nos últimos anos, se recusava arrumar os pertences e sempre que eu – quando queria – me preocupava com Madame, a encontrava no quarto, olhando as fotografias antigas, onde aparecia, ora de pijama, ora de fraudas, com um bubu na boca, a olhar para a câmera assustada. “Veja, meu filho, eu era tão feliz, tão profundamente feliz”, e soltava um suspiro agonizante, fundo, fundo... Aquilo me surpreendia, fechava a porta de Madame, ia para a rua e me deixava levar, pensando os pensamentos de Madame. “Profundamente feliz”, eu dizia, em pensamento, e jogava uma pedra em algum gato, sorrindo.
Não sei dizer, ao certo, porque estou me lembrando, agora, da história de Madame. Nem sei mesmo dizer o motivo de sua morte, nem mesmo o que a levou a fazer – se o fez – o ato extremo, dando cabo a sua tosca – por vezes convalescente – existência.
Há pouco a tínhamos aqui, a Madame da rua, com seus gatos a perambular pela cidade. Pela manhã, um passeio rápido com os dois gatos preferidos. “Isso, meu filho, não é acepção de pessoa”, ironizava, “é só porque eles dois – os gatos – são meus preferidos. Eu os privilegio. Eles têm mais valor que certos seres humanos”, falava e deixava-se ir pela calçada, se desviando dos postes e dos cachorros que encontrava pelo caminho.
Há um mês Madame faleceu. Há um mês não vejo Madame e seus gatos. Há um mês não me sai da mente a cena do seu sepultamento e os mais de 100 gatos que eu e Nelito pensávamos não existir dentro da casa de Madame, todos acompanhando o funeral, na beira da cova de Madame M., olhando, profundamente, a mãe sendo sepultada e a voz de Nelito, à beira do túmulo, me dizendo: “São mais de duzentos”.

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Concurso Cultural Um Ano Insone

Depois de muita falta de tempo e malabarismos pra ler todos os textos com a minha crescente falta de tempo, finalmente trago a vocês, pacientes, ou não, leitores os selecionados para o Concurso Cultural Um Ano Insone.

Antes de postar, devo admitir que me surpreendi com o alcance do concurso e com a diversidade geográfica dos participantes, coisa que me deixou imensamente feliz. Resolvi agora dinamizar e dar mais emoção ao concurso, desse modo, vou postar dois textos por semana e abrir votação. Dentre os quatro vencedores, novas duas votações e assim até a grande final, entre os dois mais votados Nesse caso, teremos uma competição parecida com as oitavas de final dos campeonatos, e sim, resolvi postar oito textos, tão vendo só como eu sou legal?!

Só lembrando que os textos nesse primeiro momento vão ser postados SEM os nomes dos autores, mas deverão ser incluídos quando do término do concurso. Inegociável, nem adianta carinhas de cachorro molhado pra o meu lado.

Aos textos!

Boa sorte

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Texto 1

O Chá



A moça só pensava em ir pra casa. Em meio à multidão despreocupada e ao barulho alto da música ela só conseguia pensar no quanto estava longe de seu lar e da segurança do seu quarto. Fins de festas a deixavam aflita de uma maneira até irracional; parece que todos estavam indo embora menos ela. Depois das lágrimas e da raiva alguém apareceu no seu caminho e este caminho rumava à sua casa. Não havia um dia sequer agora em que ela não pensasse nele. Quanto mais evitava fazê-lo mais pensava e cada vez mais temia levantar suspeitas que não queria confirmar. Conhecer alguém incrível seria ter que deixá-lo ir, ainda que ela não soubesse o motivo pelo qual ele partia. Alguém a quem ela imaginava ter toda capacidade e vocação para amar do fundo da alma. Mas ela acreditava que se as coisas às vezes não acontecem, deve existir alguma razão, pois tudo que se passava em seu mundo sempre foi diferente. Coisas rápidas e vazias não faziam sua cabeça. E alguém incrível não deveria passar pela vida e sim vir pra ficar. Mas se ele não veio pra ficar, o melhor era realmente deixá-lo ir. Tudo que ela não precisava agora era de mais um problema na sua vida, ultimamente, tão atribulada. Assim, tudo que ela conseguia concluir era que precisava rezar mais ainda, o que ultimamente ela vinha cumprindo. Perdeu as contas de quantas vezes tentou enxugar as lágrimas com as palavras da Bíblia e livretos de orações. Só havia uma solução para seus problemas e essa solução era Deus. Sentia-se culpada por se deixar desapontar com coisas cuja importância comparada com o que ela enfrentava não mereciam seu esforço e a perda de sua tranqüilidade. Ainda que não soubesse do que precisava, ela pedia uma graça. Ela ainda se sentia solitária às vezes, mas não mais sozinha. Ela se olha e vê coisas ao redor de si que a levam a indagar por que raio de motivos ele não se apaixonara por ela e era justamente nessa hora em que ela cometia o erro de minar sua própria auto-estima. Tem dias em que a moça ri. Ri muito. Mas ela sabe que risadas podem revelar mais que simples gracejos; eles escondem tristezas latentes e permanentes de outrora e de agora, pois só basta um pequeno problema pra trazer todos os outros à tona e transformá-los numa mistura tão complexa a ponto de não se saber mais pelo que se lamenta. Duas bolachas e água no jantar. O mínimo para o máximo. Uma mão no terço e outra na cabeça, como se perguntasse o porquê. A moça se senta na cama, faz o sinal da cruz e se deita, pedindo a benção para que amanhã seja um novo dia. Quem sabe um dia de alegria, esperando que a esperança que ela conseguia quando conversava com Deus pudesse fazê-la sentir-se melhor e seguir com sua vida. Seu estômago embrulhava, mas a água já fervia.

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Texto 2

A Última Ceia






Gabriel estava bêbado. Jantara com alguns amigos e depois foram para uma festa. Agora, no silêncio de sua sala de estar, estava pensativo. Uma taça de um bom Cabernet Sauvignon argentino na mão; sentou-se no velho sofá e deixava sua mente viajar. À sua frente, apenas uma parede branca com um quadro… Jesus e seus doze apóstolos estavam à mesa no que seria a última ceia deles juntos. Naquela réplica da famosa pintura de Da Vinci, uma dúzia de homens estavam consternados, enquanto o personagem principal estava sereno, já sabedor e conformado com seu próprio destino. Gabriel ouvia algumas vozes que pareciam vir da rua… palavras que não distinguia, mas parecia entender bem o que queriam dizer… tinham tom de acusação, denúncia, defesa e negação… “mais uma discussão no edifício ao lado” – pensou, enquanto enchia novamente o cálice e deixava a garrafa ao lado do sofá, como fizera milhares de vezes antes daquele dia. Olhou novamente para o quadro… tudo lhe pareceu normal quando André postou as mãos na mesa para levantar-se; Pedro disse a João “Pergunte-lhe quem de nós será o traidor” e voltou ao seu assento; Tiago levantou-se, indignado da mesa; João curvou-se para o mestre e perguntou-lhe aos sussurros “Quem de nós o será, Senhor?”; Filipe pôs-se a chorar por pensar que seria ele o traidor; Natanael e Tiago conversavam tentando buscar sinais de quem o seria; Mateus, Tadeu e Simão não ouviram o q ele dissera, por estarem longe na mesa; Tomé assim disse ao Mestre “Um traidor? Não posso acreditar!”; e Judas apenas buscou o pão à mesa, encontrou a mão do seu Mestre, que lhe falou “O que tens a fazer, fazei-o agora”… ele levantou e afobou-se para fora da mesa.

Gabriel também não estranhou quando Judas precipitou-se para fora do quadro, passou pela sala e, desbotado, correu porta à fora, deixando-a entreaberta. Os outros onze apóstolos pensaram que ele iria providenciar algo que estava escasso para a ceia, pois ele saíra com a bolsa. Aos poucos, Simão, que cuidava do descanso e diversão do grupo, juntamente com André e Tomé, líderes dos doze, convocou os outros oito para a ceia de Gabriel. Apenas Jesus ficou no quadro… imobilizado, com o mesmo semblante sereno… nada poderia fazer para evitar a ceia de Gabriel, seus seguidores estavam decididos à realizá-la.

Enquanto esperavam Judas voltar com o quer que fora buscar, João e Pedro ficaram ao lado de Gabriel, ouvindo-o e aconselhando-o sobre o que encontraria pela frente; ele, porém, não compreendeu muita coisa, por conta dos versos e anedotas singelas que os dois usavam para se comunicar. Filipe, o mais curioso, já abria as portas do armário da cozinha, para saber o que teriam para o jantar; ao seu lado, Mateus rabiscava num papel uma lista e pediu para Tiago e Tadeu irem às compras, sem esperar que Judas fizesse aquilo direito. Tiago, o maior, ajeitava a pequena mesa onde os treze comeriam e conversariam por horas.

Gabriel continuava sentado, taça de vinho tinto na mão, pés descalços… sabia o que tinha a fazer na condição de anfitrião: praticamente nada, pois estavam todos tomando conta dos afazeres para que tudo saísse dentro nos conformes.

Assim que Tiago e Tadeu chegaram com as compras, um milagre aconteceu: multiplicaram-se as cadeiras e o espaço à mesa; agora contavam-se treze assentos confortavelmente espalhados em volta da mesa de madeira rústica, recoberta com uma fina manta de algodão branca. Ali, então, espalharam a comida e a bebida: pães, vinhos e, a despeito do que figurava no quadro atrás da mesa, alguns peixes, já que mais da metade dos apóstolos foram pescadores em tempos idos. Ainda sentiam a falta de Judas… passara-se muito tempo que ele saíra, mas não se preocupariam em esperá-lo para cear, já que estava ficando comum a ele sumir sem avisar e retornar horas depois.

Sentaram-se à mesa, seguindo a ordem que estava no quadro atrás deles; Gabriel estava no centro, à sua esquerda estavam Tiago, Tomé, Filipe, Mateus, Tadeu e Simão; na direita, havia João, a cadeira vazia de Judas, Pedro, André, Tiago e Natanael. Cearam… ouvindo histórias de vida que Gabriel não contava: suas passagens terrenas não eram muito dignas de serem divididas como aprendizado ao grupo. Filipe apenas ficava quieto, observando a todos com grande curiosidade, enquanto Simão e Mateus eram os que mais falavam. Tomé apenas indagava às afirmações dos amigos: ”Não creio!”… Pedro continuava contando passagens a João, o mais novo, para que ele não repetisse os erros dos mais velhos… e assim seguiu-se por algumas horas…

Judas surgiu, finalmente, quando todos estavam satisfeitos e conversavam sem preocupações. Parecia estar preocupado, um pouco carrancudo até; André indagou: “Aí o está… Judas, perdeste a ceia, amigo!”. Natanael levantou-se da mesa para recebê-lo e, ao ver que o amigo não desfez a expressão obscura, perguntou: ”Por que esta cara, Judas?”. Ele olhou nos olhos de Gabriel e respondeu: “Vocês bem sabem o que fiz há cerca de dois mil anos… não é à toa que viemos aqui e preparamos uma ceia similar à nossa última ceia com o Mestre; posso, por mais milhares de anos, ser visto como traidor, mas completei minha tarefa entre os doze e eis que chegou a hora deste nosso anfitrião, a quem chamamos Mestre esta noite, aceitar seu destino”. Natanael, seguido dos outros onze à mesa, sentiu calafrios ao ouvir essas palavras e, principalmente, ao ver um cavalo negro, com um montador vestido com uma túnica escura como a noite em eclipse e uma grande foice à mão entrar pela porta atrás de Judas; os olhos, por baixo do capuz do montador, eram as únicas partes não negras ali: eram vermelhos, brilhavam de modo assustador; um vapor escuro, fétido como enxofre, era expelido pelo cavalo. Gabriel pulou sobressaltado do sofá… respirou fundo até entender que aquilo não passara de um sonho. Nos pés, sentiu o molhado do vinho que derrubou enquanto dormia; o tapete estampava uma grande mancha avermelhada. Levantou-se dali para pegar um pano e diminuir e estrago do borrão que ficaria. Olhou para a figura, na grande parede branca… estavam todos de volta aos seus lugares. Correu até o tanque e pegou um velho pano de limpeza; virou-se e viu, no chão, um rastro de um líquido viscoso, vermelho vivo. Ali, ao lado de André, Judas não mais olhava para João e Pedro… encarava-o de frente, com olhos vibrantes vermelhos, seu rosto parecia entristecido, como se fora forçado a algo por contragosto… as mãos de Gabriel estavam sangrando, assim como os pés e sua testa… os rastros que se estendiam até ele não eram do vinho, mas de seu próprio líquido venal… arrastou-se até o sofá novamente; percebera que não tinha o que fazer senão aceitar sua sina, como Judas lhe dissera em seu sonho… olhou para o quadro; ao lado direito de Jesus de Nazaré, sua própria imagem aparecia desbotada, com uma veste azul e uma manta verde. Judas pegou o pão que Gabriel lhe oferecera e beijou-lhe o rosto… chamava-o para seu destino.



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