Tempo Off

Oi gente, eu sei que eu vinha me comportando como uma mocinha e atualizando o blog quase diariamente. O problema é que eu fui pra a praia e peguei uma tremenda insolação que, quando me curei, já era dia de vir pra casa e aqui em casa o computador - pobre Denzel - anda ruim das pernas e não estava me permitindo usos simples, como o botão on/off. Contudo, não deixei de ver filmes e eu voltarei a postar as resenhas dos mesmos tão logo alguém faça aquela coisa que um dia foi um pc fodástico voltar a funcionar minimamente.

Agradeço a paciencia.

 

ps. Nesse tempo, também espero voltar a respirar normalmente e me livrar da faringite que me acometeu. Nesse meio tempo, vamos todos torcer por Prianha no Big Bróder.

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Um ano de filme # 5 Cadáveres

Unrest (2006)




Conta a história de quatro estudantes de medicina que estão no primeiro ano de faculdade e precisam testar seus limites ao dissecar corpos no laboratório. Em meio às lições de anatomia e aos conhecimentos adquiridos, Alison passa a ter estranhas visões de pedaços de corpos. Porém, ele acredita na sua sanidade e é determinado na tentativa de tirar boas notas, até que estranhos fatos passam a acontecer no local e estudantes começam a desaparecer misteriosamente.

O que mais chama atenção no longa é o descaso americano com o resto do mundo, não que seja assim uma grande novidade, mas eles abusaram. No filme, colocaram os astecas – aqueles da América pré-colombiana – como estabelecidos no Brasil. Eu não vou entrar em detalhes para não tornar o filme mais ou menos ainda mais pra menos, mas custava muito fazer uma pesquisa Google antes de fazer bobagem no roteiro?

A propaganda do filme indica “ o primeiro filme a usar corpos reais”. Isso acaba por providenciar ânsias de vômito em uma cena, a única, realmente relevante e nojenta do filme onde o casal estrela mergulha num tanque de cadáveres com um líquido nojento. Fora isso é mais um filminho de terror que não mete medo em ninguém e não sai do lugar comum espírito nervoso e vingança sangrenta. Destaque mesmo só para a barriga do mocinho e seus faiscantes olhos claros. Bom pra ele que cuide do corpo, se dependesse de talento pra atuar seria mais um na estatística do desemprego.

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Um ano de filme #4 - O Curioso Caso de Benjamin Button


Baseado num conto de F. S. Fitzgerald (1896-1940) a adaptação para o cinema é tão boa que um expectador incomodado acabou atirando em outro só pra ter sossego para terminar de ver a sessão. Violências a parte, o filme conta a história inusitada de Benjamin Button (Brad Pitt), que nasce com 80 anos de idade e vai ficando cada vez mais jovem ao passo em que cresce.

Disputada desde a década de 1990 por grandes nomes da direção (Spike Jonze, Ron Howard, Gary Ross) e do roteiro (Eric Roth, Charlie Kaufman), a adaptação do conto de F. Scott Fitzgerald saiu dos papéis para as telonas quando David Fincher se arriscou a cuidar da obra simultaneamente a "Zodíaco"e em busca do orçamento milionário, o cineasta contou com o nome de peso de Brad Pitt, com quem trabalhou em "Seven" e "Clube da Luta", escolhendo rodar em New Orleans, aproveitado incentivos fiscais do governo.


O filme de David Fincher (Se7en, Clube da Luta, Quarto do Pânico) é delicado em seu contar da história e cuidadoso nos mínimos detalhes. Devo informar que Brad Pitt agora tem o meu respeito. Ele vinha ganhando pontos com filmes de excelente qualidade, mas me irritava ele ser bonito demais, não parecia real. O filme mostra um Brad Pitt idoso - cinco horas diárias de maquiagem para compor um Button idoso - e o cuidado que ele teve em uma belíssima atuação de uma criança de 70 anos brincando de soldadinhos de chumbo é realmente tocante, embora curta e vai além, é estranho, embora não menos tocante, ver um senhor de 75 anos estranhando que sua mãe comemore que finalmente vá ter um filho.


A atuação de Pitt não é a única, aliás o filme todo é composto de talentos: Cate Blanchett, sempre bem e sempre belíssima(muito mais por estar ruiva, nem sei por que ela insiste em ser loira) como Daisy; Taraji P. Henson, como Queenie. O filme é todo muito bem cuidado, a trilha sonora é primorosa e eu, que procurei defeitos e confesso não ter encontrado nenhum que valesse o comentário ou que me fizesse ver outro filme, ou ir dormir, porque já passava das quatro da manhã. É longo, sim, não nego, mas o tamanho do filme é necessário ao saudável desenrolar da história.


Merece destaque a maquiagem. O galã não quis mais de um ator fazendo o Button, e por isso foi necessário o envelhecimento do ator e o processo digital é simplesmente invejável. Benjamin de cadeira de rodas com pernas atrofiadas aparece em cenas de banho e convive com idosos em abrigo como se ele também aguardasse a morte, tema comum em todo o filme.


Com estréia por aqui em 16/01/2009, O Curioso Caso de Benjamin Button é uma grandiosa história de um homem comum e as pessoas e os lugares que ele conhece e se deslindam na telona com o tom de velhos amigos quando assim o são. É delicado o modo como seus amores se apresentam e a estranheza que causa às pessoas. O filme é sobre a alegria de viver, a tristeza da morte, sobre amor, sobre escolhas, crescimento e sobre o que dura além de qualquer coisa.

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Dores, pilates, musculação e afins

Eu sei que está prometido, e vinha sendo cumprido a custo, mas hoje foi meu primeiro dia de malhação a sério e meu corpo dói tanto que eu nem estou conseguindo raciocinar direito. Sendo assim, vou ali ver outro filme e volto em seguida. Ou só amanhã.

Vai saber...

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Um ano de filme - (3) Marley e Eu

Eu não li o livro que mais de três milhões de pessoas leram. Não tenho como avaliar a fidelidade ao texto de Grogan, mas eu tenho uma versão miniatura de Marley em casa e ela atende pelo nome de Pitu (de Capitu, do Machado). Talvez seja essa a razão do sucesso do filme: Marley é um labrador desastrado que se assemelha, em vários momentos, a uma pequena arma de destruição em massa, como a minha Pitu, como a Pandora de um amigo meu, como o cão de muita gente.

Qwen Wilson é um John Grogan divertido, casado com uma Jennifer Aniston que honra seu cachê de oito milhões de dólares é Marley é uma desculpa adorável para contar a história de uma família comum. Este não é um filme de cachorro, é um filme com cachorro. Diferente de Lassie e Skip não é exaltada qualquer característica excepcional do cão, mas sua indisciplina, desobediência e os perrengues que um animal indisciplinado faz o dono passar. Volto a dizer: Marley não é diferente do seu cachorro estabanado, como a vida de Grogan também não é e seus conflitos que lhe tiram o sono não diferem dos meus ou dos de qualquer comum do povo.

É até meio clichê o jeito com que Marley é usado para paquerar meninas na praia, o filme não tem nada de muito “cinematográfico”, por assim dizer mas é um filme ótimo, uma pipoca bem comida, como eu costumo dizer.

É o clássico filme família pra se ver no feriado e que dá aquela sensação de se estar (ou querer estar) em casa. É um filme sobre um homem lidando com as próprias responsabilidades, entendendo que por vezes o caminho que se faz não é o caminho planejado e isso pode ser uma boa coisa. Eu gostei. E chorei no fim dramático, quando forem ver, não se afastem do kleenex.


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365 dias, 365 filmes #2 – Nunca é tarde para amar


Nunca é tarde para amar (I Could Never Be Your Woman, 2007) é uma comédia romântica levinha de Amy Heckerling ( As Patricinhas de Beverly Hills e Olha quem está falando?) com Michelle Pfeiffer exuberante aos 49 anos e mãe de uma adolescente e as duas estão apaixonadas ao mesmo tempo, mas, enquanto a filha se vê as voltas com o seu primeiro amor, a mãe é uma quarentona apaixonada por um jovem ator de 29 anos vivido por Paul Rudd.
Sob uma análise crítica que sempre busca ver uma razão em tudo, o filme dá a idéia de ser uma crítica ao mundo quase sempre estéril das celebridades, mostrando um cara bom e nerd cativante – fórmula que se aparece com o mesmo Rudd em As patricinhas de Beverly Hills– e a busca da beleza constante e eterna que não envelhece com o hilário Jon Lovitz.
A mim pareceu uma pipoca bem comida, um filme agradável, engraçado, que até, vá lá, critica os estereótipos trabalhando com eles e até tem uma paródia legal com um escárnio rasgado ao ex-presidente Bush, acompanhando a onda de repulsa a seu Governo em todo o mundo numa cena final divertida.
Cumpre os dois papéis, o primeiro de um modo talvez um tanto demagogo, mas nem por isso menos interessante e o segundo, entretenimento, de maneira mais contumaz. A direção é cuidadosa e o filme não possui brechas, o roteiro é interessante, dizendo a que veio desde o início, a trilha sonora se adapta a necessidade da cena e a fotografia é excelente. Merece destaque, ainda, o relacionamento amistoso de mãe e filha, a segunda vivida pela talentosa Saiorse Ronan, por vezes, bem mais madura que a própria mãe. Divertido, engraçado, sensível e mostrando uma história de amor de uma mulher mais velha que acredita que o relacionamento com um rapaz mais novo não dá certo mas se deixa ir, a despeito das paranóias hilárias e da própria Mãe Natureza que também dá seus pulos na história.

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Um filme por dia durante um ano - 1º Max Payne

E eu soube que o cara do Omedi está nessa e eu fui desafiada a seguir a mesma linha. Ta. As regras dele são absolutamente impossíveis para mim, e eu me reservo o direito de cumpri-las dentro do meu possível, tipo me abster de assistir necessariamente um filme anterior a 2000. Verei 365 filmes, no mínimo – Anna é atrevida, audaciosa, megalomaníaca e falastrona – em 2009. E não serão necessariamente filmes que eu não vi, dado que se eu postar resenha de filme que eu já vi antes ninguém saberá, e eu não gosto de ser mentirosa. E isso é bem coisa que eu faria, vez que eu tenho mania de rever alguns filmes. Adianto que o ano já vai em seu quinto dia e eu já vi doze filmes.
E o nº 1 é: MAX PAYNE



O filme é baseado num jogo. Ao que me conste, nenhuma adaptação para o cinema de games deram certo no quesito qualidade, ao menos para mim. Não, eu não sou uma jogadora de vídeo games muito talentosa, na verdade eu jogava Top Gear pelo prazer de correr e só devo ter vencido uma corrida na vida, e sempre jogava a mesma fase de Mário, além de ter desenvolvido uma idolatria por Bomber Man. Adoro mesmo até hoje. E acredito sinceramente que o que é do jogo não sobrevive bem sem a interatividade inerente.
Max Payne(Mark Wahlberg) é um detetive do arquivo morto que é do arquivo porque não superou a morte trágica da esposa e do filho uns anos antes e ninguém no Departamento de Polícia tem lá muita coragem de discutir com ele, parece que ele ficou assim muito nervosinho. Ele continua se torturando e buscando encontrar os assassinos de sua falecida esposa, quando se torna suspeito da morte de uma russa bonitona que por sorte dele é irmã da russa bonitona, vivida por Mila Kunis, a Jackie de That 70s show, que eu adoro, chefona do tráfico. A mulher vai atrás dele para destruí-lo – a arma era mesmo bem grande – e os dois se unem para encontrar os assassinos da esposa e da irmã, respectivamente.
A trilha sonora é boa, mas não é tão boa assim, vez que não lembro de uma só musiquinha. Lembra o jogo nos lances dos tiros em slow motion e no nome. E só. Não que eu jogue, mas eu sou bem relacionada no meio nerd.
Agora vamos a tudo o que eu não gostei no filme do John Moore: a história a lá Charles Bronson é batida e ainda não sei a que vieram os monstros voadores que aparecem a todo instante na película. Sim, eu sei que faz uma alusão à mitologia nórdica. Mas no filme... Não tem nada a ver com nada, ainda que o existe uma cena didática no melhor estilo Código DaVinci para explicar a presença. A atuação carão de Wahlberg também não é lá uma Brastemp, ele nem muda de expressão no próprio desespero, e não lembra um homem torturado, não chegando nem perto dos andróides que vieram do futuro para matar o filho da Sara Connor. Absolutamente inexpressivo.
Além de não ser crível, o desesperado agente Payne parece ser mesmo personagem de vídeo game de jogador pilantra, tanto que ele leva uma saraivada de balas e um tiro de escopeta à queima roupa e não chega sequer a diminuir o passo, quanto mais morrer, e sua arma jamais descarrega e ele nunca perde uma só bala quando atira e nem arma para nenhum grandão que o revista. Acredito que para destruir Max Payne só mesmo o Chuck Norris em sociedade com o Jack Bauer e uma ajudinha do Capitão Nascimento.

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A Pagadora de Promessas

Bem amigos da Rede Globo... Opsss!
Como vocês podem ver, finalmente cumpri a promessa de renovar o blog, e graças à paciência de Jó de Rafael, o blog agora tem uma cara. A minha. Ta funcional, bonito, prático e não me dá taquicardia e agonia de olhar e, pasmem, até me dá vontade de escrever. Ta tão bom, que finalmente eu consegui ganhar dinheiro com ele: depois de um “mói” de tempo, finalmente eu consegui fazer mais de R$ 50,00 de comissão do Submarino e comecei o ano sem ter que pedir dinheiro a painho pra voltar pra casa! Não que os cinqüenta mangos sejam usados para a passagem de volta, ou que eu esteja planejando voltar agora, mas a piada era boa.
Então, como paga pelas 9 horas de trabalho que ele teve no meu blog – depois de me enrolar por mais ou menos um ano – posto aqui uma de suas incursões pelo mundo artístico letrado.
Agora eu deixo vocês (sic!) com:


A hora só é a hora quando eu quiser


- Uma, por favor! – pediu o rapaz à moça da bilheteria.
Era terça feira, 22h e naquele cinema, encravado no meio do centro imundo daquela cidade, um rapaz entrava solitário na sala do cinema. A sala fedia a mofo, cigarro, pipoca velha e sexo. Era uma dessas espeluncas onde os fracassados vão. Aqueles que não têm para onde ir e que resolvem se matar lentamente vivendo solitários, drogados e desocupados.
Sim, aquele rapaz não é diferente de tantos outros que ali vão. É um desempregado que a muito saíra da casa dos pais, mas que era melhor lá ter ficado, pois lá não pagava contas. Ta certo que hoje em dia ele ainda não paga, mas pelo menos antes havia alguém pra pagar e ele não precisava ficar se escondendo dos cobradores como um rato se esconde de um gato. Mas isso esta para mudar e eu acompanhei isso, assim como acompanho tudo. Na verdade quase tudo. Não se pode estar em todos os cantos ao mesmo tempo. Pelo menos não todo mundo.
Talvez você já esteja suspeitando quem eu seja, mas se não, tudo bem, um dia nós seremos apresentados. Para alguns, isso é um desgosto, algo que vocês prefeririam morrer a ter que me encontrar. O que é estranho já que vocês só me encontram na hora da morte. Mas vocês humanos são seres estranhos. Tão estranhos que o rapaz sobre o qual vos contarei sua façanha é um dos que não vêm um encontro comigo como algo estranho, e sim como algo desejável. Seu nome era Dylan e a sua idade era o mesmo número do horário em que ele entrou no cinema naquele dia quando tudo aconteceu.
Agora que conhecemos o nome do nosso herói, ou tolo se vocês preferirem, deixem-me falar um pouco sobre ele. Dylan fora uma criança nascida em uma família com problemas. Aquela coisa de sempre. Pais jovens e viciados que não estão ligando a mínima pros filhos, e que vivem brigando. Em casa o coitado – sim, eu tenho pena de Dylan, ele sofreu muito - era humilhado pelos pais e pelos irmãos mais velhos. Até o cachorro, um velho vira-lata sarnento, era mais bem tratado do que ele. Mas a vida de Dylan em casa era uma maravilha se comparada com a vida dele na escola. Ah, a escola! Para alguns um paraíso, para outros o inferno. Talvez seja por isso que Dylan gostaria tanto de me conhecer. E às vezes, quando penso nele – sim, eu não sou uma pessoa sem coração como vocês pensam. Esse é o meu trabalho e assim como qualquer um tenho que cumpri-lo, gostando ou não – me sinto culpada por ter demorado a encontrá-lo, foram... Não, não vou dizer com quantos anos o nosso pobre Dylan morreu. Eu não seria tão má com vocês a ponto de dar uma dica de como termina a nossa história – ta vendo como eu não sou o monstro que vocês imaginam. Mas voltando, com 16 anos nosso amigo não agüentava sua vida, já chegara até ao ponto de tentar pegar um atalho e me encontrar antes, mas a vida – ou a morte como preferir – não funciona assim. Quem te encontra sou eu, e não ao contrário. Esse caso é até interessante de ser contado, porque ele mostra um dos motivos de eu sentir pena do nosso Dylan. Ele é azarado... – e um pouco burro também. Certa vez, ele tentou pular do prédio onde ele trabalhava, mas ao chegar à janela viu que ela tinha grades. Procurou feito um maluco uma chave de fendas para removê-la, tão grande era sua resignação com a vida. Mas, como eu disse, a hora só é a hora quando eu quiser. A grade não era aparafusada e sim chumbada na parede. Nosso amigo só pôde chorar como um bebê nesse dia. Hoje ele deve se sentir feliz por isso, mas vamos logo à história antes que eu conte o final sem querer.
Dylan entrou na sala do cinema.
O odor ocre queimou suas narinas.
Olhou em volta a procura de um lugar para se sentar, mas não teve que procurar muito, afinal, só deviam ter umas 10 pessoas naquela sala. Uns casais fazendo sexo lá na frente, uns drogados viajando num canto e ele.
Ele escolheu uma cadeira no meio da sala, sentou-se e tentou se concentrar no filme. – Sette Scialli Di Seta Gialla – fora como a bilheteira chamara o filme. Ao que parece era um giallo bem meia boca, mas que ao menos tinha uma atriz de quem ele gostava. Sylva Koscina.
Meia hora mais tarde Dylan acordou com alguém falando perto de si.
- Me passa a pipoca, querida.
- Não comprei pipoca hoje, companheiro. – respondeu Dylan ainda meio que adormecido.
- Como?
- Ah, desculpe, achei que estivesse falando comigo. – Dylan agora já mais acordado desculpava-se com um senhor careca sentado na fila da frente, acompanhado por uma mulher, a qual Dylan não pôde olhar direito, só podia afirmar que era loira e ponto.
Dylan esfregou os olhos, bocejou e tentou lembrar-se o que acontecera desde a hora que entrara na sala. Provavelmente dormira ao sentar-se, o que não era incomum de acontecer. Aquele cinema era visita freqüente e ele já perdera a conta de quantas vezes havia caído no sono no meio de uma sessão. O que era estranho na verdade era terem sentado tão perto enquanto o cinema estava praticamente vazio. Mas vá saber, esse mundo é cheio de estranhos e Dylan era apenas mais um deles.
22h 40 min, muito cedo ainda. A noite acabara de começar e Dylan já estava de saco cheio dela. O filme era uma porcaria. Os atores atuavam pessimamente, e até a sua querida Sylva estava numa noite péssima.
- Que droga de filme, vou pedir meu dinheiro de volta e dar o fora daqui.
Chegando à bilheteria não encontrou ninguém. O filme já começara a 40 min e supondo que ninguém mais ia querer ver essa porcaria a bilheteira provavelmente ou devia estar em algum canto se drogando ou trepando por aí.
Dylan não tinha pra onde ir. Pra casa não dava. Tinham cortado luz, água e gás. Só não haviam mandado ele próprio embora, porque ele dava um jeito de não receber o comunicado do oficial de justiça. O jeito era voltar pro cinema e tentar dormir mais um pouco. Mas antes resolveu dar uma passada no banheiro para aliviar a bexiga.
Como era de se imaginar o banheiro era imundo. As paredes todas sujas de fezes, até o teto também continha vestígios de excremento humano. – Como alguém consegue sujar lá em cima? – se perguntou. Mas ele sabia a resposta. Humanos. Sem contar os próprios vasos sanitários que pareciam mais esgotos de tão imundos que estavam. Bem, abriu o zíper e... Ta bom, vocês sabem como o negócio funciona, eu não preciso explicar.
Ele já ia saindo do reservado quando escuta alguém entrar fazendo uma barulheira.
- Vai meu garotão, tira logo essa roupa!
- Mas que droga, era só o que me faltava, um casal transando e me impedindo de sair da porcaria desse banheiro imundo e fedorento. – resmungou o pobre Dylan para si próprio.
Mas fazer o quê. Dylan era tão fracassado que não seria homem suficiente pra sair e atrapalhar o casal. O jeito era sentar no vaso e esperar. Provavelmente o coito duraria 5 minutos e tudo estaria resolvido.
- Oh! Vai, vai! Isso, querido! – aqueles gemidos já o estavam deixando de saco cheio, porque além de tudo, ele era um fracassado na cama, e aquilo só o estava deixando mais estressado ainda.
- Ai, ai, assim não, querido, ta machucando.
- Você agüenta.
- Para! Ta me machucando!
- Olha aqui sua vadiazinha, eu estou te pagando, então vai ser do jeito que eu quiser.
- Socorro!
- Cala essa boca sua vagabunda.
O barulho de tapa doeu até na minha alma nessa hora e até Dylan, covardão do jeito que era, começou a ter vontade de ser macho suficiente pra defender aquela pobre alma em apuros.
- Olha aqui sua vagabunda, se não for do jeito que eu quero eu te enfio essa faca na garganta, ta me entendendo? E é bom você calar essa matraca antes que eu me irrite.
Dylan ouviu um baque seco e viu que o homem havia empurrado a mulher ao chão. Por debaixo da porta podia-se ver sua cabeça. Rosto contra o chão e uma mão segurando com força uma cabeleira loira. Sua face estava virada para Dylan e ele podia ver que a pobre mulher chorava compulsivamente e gemia de dor.
Seja homem, Dylan! Enfrente esse covarde!
Mas é assim mesmo, esse é o Dylan que todos conhecemos, incapaz de ter coragem numa hora dessas. Provavelmente ele deve estar cagando nas calças nesse momento. Aliás, não podia estar num lugar mais adequado para estar se cagando de medo.
Esse é mais um dos motivos pelo qual eu tenho pena do Dylan. Ele é medroso.
É Dylan, esperemos mais um pouco, daqui a pouco tudo acaba. Você sai desse cubículo fétido e vai para sua vidinha fétida. Ser apenas mais um ser insignificante nesse mundo enorme.
Espera aí! Dylan, o que você está fazendo? Você esta pensando em ajudar essa pobre moça? Mas isso não é da sua conta, você nem ao menos a conhece.
Sim, amigos, nosso amigo em comum, ao que parece, resolveu mudar sua vida, criar coragem e encará-la de frente. Será que teremos alguém que fará a diferença hoje nesse banheiro dum cinema de terceira, no meio de uma cidade de quinta? Pelo visto sim, pois Dylan abre a porta de uma vez com um chute bem dado e parte pra cima do agressor.
O que chega primeiro é seu punho, que acerta o agressor em cheio no nariz. O agressor cai pra trás urrando de dor. O sangue escorre pelo seu nariz e suja o chão inteiro a sua volta. Nesse meio tempo, Dylan abaixa-se próximo da mulher e pergunta se ela está bem. Que pergunta idiota... É claro que ela não esta bem, acabou de ser violentada por um careca imundo – sim, após dar o soco no agressor Dylan pode ver que ele era o cara da pipoca, o cara que o havia acordado, o Careca. Bem que ele merecia um soco mesmo, Dylan havia pensado quando acordou, mas naquela hora não tinha coragem o suficiente, mas agora tinha.
Falando no Careca, o sangue que escorria pelo seu nariz já tinha diminuído um pouco o fluxo, e a dor lacerante que sentia ia diminuindo aos poucos. Já não o impedia de raciocinar mais.
Vendo nosso amigo prostrado junto a sua querida, ele sacou a faca, a qual havia mencionado antes, e arremeteu-se para cima de Dylan.
Quase pego de surpresa, Dylan no último momento conseguiu esquivar e agarrou-se ao Careca. Agarrados, começou uma briga de forças, onde o Careca tentava furar Dylan com a faca e, por conseguinte, Dylan tentava impedi-lo. A briga não deve ter durado nem 2 minutos, pois Dylan pisou no sangue derramado do Careca que estava espalhado pelo chão. Conhecendo o azar do nosso amigo, vocês já podem imaginar o que aconteceu. Claro que ele escorregou. E levou consigo ao chão o Careca.
- Urhg! – foi o único som ouvido além do som produzido pelo baque dos dois. Ambos ficaram imóveis. Mas por pouco tempo, porque um deles logo começou a se levantar. É amigos, vocês devem estar se perguntando quem será que foi o vitorioso nessa luta, o sobrevivente. Provavelmente, diante de toda a ineficácia já apresentada por Dylan, dificilmente seria ele, mas sim, Dylan resistiu. Ao caírem, a lâmina da faca estava virada apontando direto para o coração do infeliz do Careca.
Talvez, a única explicação possível seja o Careca ser mais azarado e mais inútil que Dylan, o que não é impossível, afinal, aquele era um cinema freqüentado por fracassados, como eu já afirmei.
A loira vendo-se segura, com sua agressor morto, arranja forças para levantar-se. Prostra-se em pé e vai ao encontro do seu salvador que também começara a se levantar.
Pois é, amigos, Dylan, aquele por quem nem eu nem ninguém daríamos um vintém furado fora o herói da noite, matara o bandido e salvara a mocinha. Teria ele agora o beijo apaixonado geralmente recebido pelos heróis no cinema? Ao que parece sim, pois ela vinha em sua direção com um sorriso ao mesmo tempo de alívio e de admiração no rosto. E enquanto na tela grande a mocinha se dirigia para beijar o herói, na vida real o fato era reproduzido.
O beijo era iminente quando Dylan escorregou no sangue que ainda se acumulava no chão. Escorregou e caiu no chão. Escorregou, caiu no chão e dali não levantou-se mais. Sim amigos, esse é Dylan, o azarado. E vocês devem estar revoltados comigo, mas é como eu disse "A hora só é a hora quando eu quiser".


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